Outro Alguém

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A rapariga que não fugiu

Nas páginas de um caderno há pequenos registos que são encantadores. Libertos, vivos na memória, recentes nas tintas escolhidas, encantam quem ousa sentar-se e ler um pouco.

“Eu um dia mostro as fotografias. É óbvio que eu não queria interpretar corretamente o que estava a acontecer. Haverá alguém que diz o que pensa? A resposta é sim e não” – diria com um sorriso.

Subtil a ousadia de escrever o que se pensa, nesse momento de ausência, que recorda aquelas casas antigas com carinho.

O coração conta que num pequeno terreno com duas casas, num local esquecido do mundo, as pessoas que não são encantadoras queriam afastar uma família, do seu espaço de descanso. Anos sem número houve alegria e ninguém podia entender que de uma maneira ou outra possa bater à porta aquilo que não surpreende.

Esse pequeno refúgio escondido nos tons de verde contava as verdades perdidas. O seu aspeto permanecia igual há uma eternidade até um vento de mudança espreitar à porta. A rapariga estava ali. Não era severa. Era tudo o que quiserem dizer, era tudo o que quiserem acrescentar. Modelou, escolheu e decidiu o percurso para tornar tudo moderno. Demasiado arranjada e maquilhada a rapariga sabia que havia espelhos cruéis, por perto.

Os anos passaram. Foram muitos sentados em qualquer lugar.

Nunca subestimem o que pode acontecer. Nunca. Não interessam as palavras que gastamos desnecessariamente para construções que não aproveitamos. É melhor cumprimentar o presente e esquecer as palavras invejosas e traiçoeiras.

Sabendo o que precisava ser feito, a rapariga, que não fugiu, voltou. Um dia de verão, engoliu em seco, preparou umas férias e fez agitar o vento. Na verdade, a casa estava magnífica. Os seus esforços tinham valido a pena e surgiu uma excelente oportunidade para continuar a transformação.

Abraçou com suavidade a família e os quase desconhecidos chamaram-na. Ofereceram sorrisos, mostraram os bebés de uma cadela lindíssima, deram-lhe carinho. As suas casas estavam igualmente bonitas, rodeadas de cheiros frescos e nevoeiros de bolos doces.

Todos os que gostam da verdade oferecem ternura nas palavras e reconhecem a honestidade.

Muito alegre e vestida de forma mais descontraída, avançou para o seu destino, para a sua existência e para as suas escolhas. Os dias de verão mostraram outros ares, outros cheiros. A rapariga que não fugiu, voltou. Voltou sempre com as mudanças de alma, voltou sempre com as cores do verão.

Para quê dizer tudo? O que é deslumbrante também espreita à porta.

@ Maria Silva Monteiro