Outro Alguém

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Voltei

Será que todos reparam nas casas, nesse conforto humano, cheio de histórias, que se renova no tempo silencioso?

Caminhavam em silêncio ao lado um do outro. As árvores ficaram para trás e os candeeiros junto à estrada permitiam ver melhor o caminho. O céu estava escuro e várias casas, de ambos os lados da estrada, tinham as luzes exteriores acesas. Não se via ninguém e o barulho era cada vez mais incomodativo. Aquela pequena dúvida,  sobre a decisão de sair numa noite tão escura e fria, era agora uma certeza. 

Novo susto. A trovoada e as descargas elétricas assustavam o Silvio.  Olharam em redor à procura de um abrigo. Tudo parecia impossível naquele momento. O amigo de quatro patas, com olhar dócil, sempre pronto para correrias, parecia mais lento do que habitualmente. A escuridão abafava o entusiasmo de uma saída que já se tornara habitual.

Começou a chover. O céu estava carregado de negro. A chuva era cada vez mais forte e quando olhavam para a luz amarelada do candeeiro conseguiam ver aquelas riscas de água gelada moldadas pelo vento áspero e gélido. A lanterna mostrava o  caminho de lama e o abrigo que encontraram era apenas as paredes de uma velha casa abandonada, em perigo de derrocada e com um ar sombrio. No canto onde se protegeram havia espaço para se sentarem sem apanhar chuva.

O amigo de quatro patas, a quem chamaram Silvio, sempre se interessou por cantos com coisas esquecidas e desta vez interessou-se por um espaço com algumas coisas velhas, pedaços de madeira,  um alguidar de barro  partido, qualquer coisa que parecia metal enferrujado e uma carteira velha suja de tinta. No seu mútuo interesse pelo espaço ficou a descoberto um pequeno caderno com uma capa rija, sujo de tinta preta.   Estava junto a uns tijolos de barro que caíram neste triste processo de deterioração das paredes da casa.  O caderno tinha folhas escritas à mão e nem entendiam como o tinham encontrado, nesta noite de tempestade em que nem deveriam ter saído. Este cantinho  já fora o lar de uma família.

Estavam a cem metros de casa, mas com a trovoada e a chuva resolveram ficar mais um pouco. Com o caderno na mão contou ao Silvio que as heranças nunca são pacíficas e disse-lhe que todos na vila sabiam que os membros da família, proprietários deste terreno, não se entenderam com as partilhas da herança. Irmãos e pais com opiniões diferentes sobre o que fazer, arrastou desentendimentos e afastamentos. Foi como a lama que cobre de sujidade o que resta dos tempos passados.  A relação de amizade que todos deviam ter ao longo da sua vida familiar estava coberta de lama e minava as decisões sobre o futuro.

Há dois anos a casa ainda tinha  as paredes de pé, com alguma robustez aparente e com algum charme ilusório.  Desde que ali tinha estado as paredes tinham caído e ficou surpreendida quando viu tudo tão diferente naquele terreno. 

Na nostalgia dos pensamentos havia um pequeno pormenor para esclarecer. O caderno tinha mostrado alguns segredos e muitas linhas tinham novidades. A chuva que os tinha trazido até ali parou e as luzes ténues mostravam o caminho. Guardaram o caderno na mochila e regressaram a casa. Ao longe a vila parecia calma, várias casas foram renovadas desde que visitara a família e algumas construções novas estão quase prontas.

Foram pela estrada  em direção a casa, como se tivessem pressa de sair da escuridão. Voltaram ao conforto com um caderno e muitas palavras que mereciam ser decifradas.  Um chá quente, uns biscoitos  e o aconchego das mantinhas, num dia de inverno, fizeram esquecer uma noite tão desagradável e com um certo misticismo ou talvez seja apenas uma estranha coincidência.

Leram as notas em voz alta e viram o número 4.45 registado em várias páginas do caderno de capa rija. As mensagens, dirigidas a alguém, descreviam momentos felizes e o amor que sentiam pela família. Quando o colocaram  de novo na mochila  olharam um para o outro  e ambos sabiam que o pequeno caderno de capa rija voltará para os seus donos. O Corgi parecia compreender que esta aventura tinha um final feliz.

 A tempestade tinha passado.