Por uns momentos, coloquei a hipótese de valorizar o tempo. Passei o olhar pelo espaço e obriguei-me a pensar em coincidências, em factos, no porquê, no como e em espaços vazios. Baixei os olhos para o computador. Cada palavra que escrevesse seria uma responsabilidade barulhenta. Sou sempre compreensiva comigo mesma, mas há sempre uma parte de mim que deseja corrigir o que está escrito, por medo da infinita responsabilidade. No entanto, existe qualquer coisa neste processo que me atrai quando tenho as mãos cheias de papéis.
Deixo aqui este mistério, pura e simplesmente imprudente. Às vezes, sinto que me cortaram as palavras. Serão as nuvens e o ar gélido que me fazem pensar assim?
Avancei um pouco na direção da cadeira, mas senti um arrepio e estremeci. Parei perplexa. Estaria assim tão mau lá fora? Levantei o queixo, espreitei e encontrei o caminho de volta para a imaginação. Precisava de um agasalho de lã. Os caminhos estavam gelados. Um manto quase descolorido acompanhava o muro. Tentei adivinhar o que seria um passeio de lazer pelas redondezas, no dia em que desejava a mudança dos espaços. Percorri a distância para a água gelada e escrevi que me cortaram as palavras. Assim, serei capaz de dar um sentido às pinturas, a todas as arrumações e à nova decoração.
Darei, também, um sentido ao receio de juntar as palavras escritas, quando o tempo parou.
@ 2025 Maria Silva Monteiro
nota – Um texto muito honesto. As palavras que nos magoam, as palavras que duvidam, as amizades que não o são, perdem-se na verdade que é simples e inocente.