4 de janeiro 2026
Um bolo servido antes do dia começar. Doce e saboroso espalha a amizade e as palavras doces.
O nosso olhar atento e gentil procura espaços abertos à criatividade e à originalidade, com conteúdos agradáveis e ambientes próximos. São fatias de bolo em que cada um decide o que é melhor para si —e ainda bem que vivemos num mundo cheio de autenticidade e estratégias inovadoras. Criar experiências, partilhar conhecimento e aprender é benéfico para todos. Podemos sempre recusar o que não preenche os nossos pontos de vista, com a delicadeza que nos ensinam.
E o vento sopra leve e cordial quando não reparo nos céus sombrios que antecedem a tempestade. Na verdade, reparamos todos.
No meio de um vento tempestuoso, há sempre feitios num turbilhão quase febril que, por vezes, não esperamos. Sobem as escadas das publicações online com a pressa da indignação. Em cada passo indignado enumeram os propósitos; em cada linha escrita mostram os interesses. Encontram os passos dos outros, repetem os que foram embora e esperam pelos resultados. Aquele que critica, e que outros aplaudem, fica destacado e junta-se à lista dos preferidos num feed azedo, cada vez mais amargo. Juntam às paredes de publicações, em que colam opiniões e listas de obrigações, uma colher de azedume que ferve sempre que as novidades acontecem. Estão contra a mudança. Estão contra a modernidade, contra a ciência. Estão contra a opinião dos outros. Já estão ali há tanto tempo, num temporal perdido, zangados com um nome. Zangados com mais dois. Será que escolhi o bolo errado… ou talvez seja demasiado açúcar?!
Esclarecem quem não serve, mais uma vez e outra, mas em cada bolo que preparam esclarecem, também, quem no silêncio os fica a conhecer melhor. Atiram nomes ruidosos sem açúcar e vão descendo as escadas para entregar palavras ainda mais velhas e amargas. Sabem tudo. Os outros amigos também concordam com a cobertura sem chocolate. Na verdade, são livres na liberdade que escolhem.
Talvez seja tudo uma ilusão. Talvez seja preciso acrescentar chocolate. Há muitas coisas que não respiramos. Há muitas coisas que recusamos. Há muitas coisas que ignoramos na liberdade dos outros. Ainda bem que estão felizes na criatividade que consideram justa. O olhar que nos dedicam nem sempre é justo ou fiel, e o nosso olhar, repetido, pode ser injusto e nem sempre sabe tudo, mas podemos sempre dizer não.
maria silva monteiro – 2026