As linhas escritas são leves como a brisa suave numa manhã de frio. Um chá e o aconchego da roupa quente afastam o desalento do inverno e a sonolência avança como um amparo ternurento. São os pensamentos que visitam uma casa antiga de família, junto a uns terrenos com pinheiros, sobreiros, eucaliptos e algumas oliveiras. O cheiro daquele ar acarinhado pelas aves e pela vegetação não se compara com o ar que agora respiro, na azáfama do trabalho e no conforto das paredes, noutras paragens distantes. Nestes pensamentos lembro-me de lençóis com bolbos de tulipas num lugar ao sol. O pequeno jardim dormia o sono de inverno repleto de surpresas para agitar a primavera. Acumulava roseiras em pequenos cantos para mais tarde causar admiração com tanta beleza próxima da perfeição. Não muito longe dali os pintassilgos regressavam ao final da tarde a um campo de oliveiras banhado por um sol tardio e repleto de ramos convidativos disputados por vários candidatos, ou talvez um qualquer ritual que desconheço.
Agarro-me à roupa quente e reparo nas zonas verdes sempre cuidadas que espreito nas janelas da azáfama diária. Sobrevivem entre as paredes e a estrada em quadrados de vida, com melodias e paletas de cores que exibem nos meses de renovação. Apesar de serem pequenos carinhos para os transeuntes, para certos feitios e formas de estar na vida são afrontas que outros tentam destruir.
Por vezes a lua e o sol não são iguais para todos. Por vezes nem todos pensam da mesma maneira. A força da natureza e a força da educação acomodam disputas, avanços e desafios no seu caminho de progressos.
Tudo aqui é cuidado no frio do inverno e nos sabores da primavera. Tudo aqui é especial quando um rabirruivo se mostra.
© maria silva monteiro 2026
