Outro Alguém

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O som das tempestades

Nebulosidade, chuva persistente, árvores quase despidas, olhares discretos e um abanar de fatos pretos, os cinzentos de alguma coisa e, ainda, essa cor de chumbo exibida por tudo o que já foi azul — tudo o que já foi colorido. Esses dias de chuva e vento cantam no peito as lágrimas derramadas nos dias que nos atormentam. Estendem o véu que nos esconde e repetem os dias sem conserto.

Tudo nasce no princípio do dia ensaboado pelo tempo que veio para ficar.

Uma película de dissabores esconde-nos a ilusão e aperta-nos na brusquidāo dolorosa. Essa linha de dias a crescer esconde a vida, deixa o peito frio, a secretária vazia de conforto e as cores dos dias afastam o caminho da resiliência. Sofremos. Um manto de névoa cresce todos os dias e elimina o que está escrito. Envolve o que se conhece. Inunda o que gostamos. Devora. O peito gela mais uma vez nessa barreira branca que nos leva para a ausência do riso. Essa cortina brusca, esse nevoeiro cerrado, leva-nos para a morte prolongada. Vejo-a crescer, esticando a sua essência por tudo o que se conhece, sobrepõe-se ao necessário que começa a desaparecer. Esconde a entrega demorada das cores sem medidas, sem extremos, sem rebordos —e tudo se perde para a brusquidāo dos sons desconhecidos.

Rasgos de nervosismo escondem-se nos olhares discretos, mas preocupados, quase perdidos nos pensamentos gélidos do inverno. Todos permanecem atentos. Os avisos ficaram marcados com cores no tabuleiro das preocupações. Muitos já sofrem afastados dos lagos, dos rios, dos mares, da vida, do conhecimento.

São as pessoas que estão ali! Muitas vozes já gritam no choro da dor.

E quando tudo passar um soprano afastará a neblina que nos atormenta, os ventos da ternura ganharão à zanga dos céus.

O bolo quente da bondade chegará para todos.

maria monteiro – fevereiro 2026