Salpicado de primavera e inverno como uma blusa branca, com rosas esculpidas nas ranhuras de uma chave, o presente é uma novidade apressada que canta as mudanças e os ingredientes do agora que me acorda.
A personalidade insiste nesse medo de mudar. Não aposta na novidade, não adivinha a subtileza.
Quase adormecida estremeço. Como explicar melhor as barreiras que se erguem, as distâncias que se ofendem, as diferenças que se escondem?
Tudo é leve no depois do agora. No caminho escolhido das imperfeições não há gelo, mas há um modo elegante de escrever palavras e dizer qualquer coisa.
O que será esse momento que passa sem ser preciso? Nada?
Que críticas farão do agora e do depois? Que adjetivos levam para longe, na companhia de tantos outros?
É nesse mundo, em que cumpro o que é preciso, que conto as palavras, que dobro os sorrisos e, no fim, canso-me dos que ofendem. Canso-me das palavras com setas, dos biscoitos amargos, canso-me da imaginação do que é falso sendo verdadeiro. Canso-me sem estar cansada.
Acordo para as limpezas deste presente passageiro. Acordo para o barulho das máquinas, para o som dos disparates nas estradas das cidades. Admiro a jarra das flores. Admiro o que acho bonito.
Lembro-me de ti. Lembro-me das bananas e das paisagens, da arte e do nome de um rio. Lembro-me até que o sono me leve para a agitação do presente.
Este presente de agora renasce na primavera. Renasce num sono guardado à espera de acordar.
29 de março 2026 – Maria Silva Monteiro
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