Outro Alguém

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Os dias de uma estação amena

Sem pavoneio digo o número de novo. Essa palavra intensa, que escrevi numa folha imaginada, guarda um pequeno segredo.

Como uma brisa de gratidão apaguei os dias do calendário e trouxe-os para um vazio que o vento leva, todos os dias, quando me acorda. Sinto uma sensação de deveres afastados que guardei no caminho, antes de os devolver na próxima estação. Sinto inquietação e uma névoa esconde o que leio e, também, o que escrevo numa janela apertada por todos estes ares, que me incomodam. Avivo na memória essa intenção que devo cumprir e aperto a vontade de escrever de novo as palavras que preciso.

Escrevi um número enigmático que é um terço do limite. Um dez redondo que às vezes se estica para um vazio de agitação, com a confiança da proximidade de dias mais leves e silenciosos. Sinto as mudanças soprarem o que escrevo.

Evapora-se o saber quando rodo a chave e procuro esse caminho que me acompanha. Conto muitas vezes o triplo do dez com uma ansiedade vigorosa e apaziguadora. Antes de amanhecer eliminei o querer saber, escondi o espreitar e o repetir tudo de novo. O que gosto ficou guardado até ao dia em que o triplo do dez me ofereça os sons que admiro e as palavras que desejo escutar. E quando acordar desta decisão ficarei à espera da brisa morna, que me dá a mão quando preciso de sensatez.

Numa toalha de areia, a ausência da azáfama do saber deita-se para respirar e aponta os dias, num caderno vazio de sobressalto. O triplo do dez e um dez redondo de imaginação oferecem dias mais leves e decisões duradouras. A espera por vezes não é dócil nem suave, mas uma luz brilhante, nos dias de uma estação amena, acorda os abraços e os espaços escolhidos.

Conto os dias que vão diminuindo para essa intenção que devo cumprir.

Maria Silva Monteiro – 6 de maio de 2026