Estas linhas são uma sentida homenagem a alguém com nome e idade.
Já tinha reparado nas roseiras e nos botões que secaram sem vontade de mostrar a sua beleza. Foram cuidadas durante anos no jardim ventoso e alimentaram-se do carinho e do constante apelo de beleza e cor. Ofereceram a força, a luz e cativaram os olhares. Estavam ali, naquele lugar.
E agora? Que apelo se adivinha? Que sentimento transparece na ausência da força de viver? E agora?
Reparo no que parece diferente. Senti a mudança e a ausência.
Quando o sol entrava pela vida e o vento sacudia o pó das folhas verdes, os donos sorriam com o perfume das rosas e tudo parecia acontecer, no canto escolhido para ocupar o tempo dos dias.
Estas linhas são o reconhecimento da vida que amadurece a cada sol nascente quando vejo os outros na sua juventude avançada a cuidar do que é seu. E depois sinto a dor de não perceber a alteração que caminhava por perto. Sinto que o silêncio da preocupação não se afasta mesmo quando somos quase estranhos. Recordo que a ajuda chegou há pouco mais de um ano, vejo o tempo avançar e não consigo afastar o desalento da incerteza.
Não há rosas no jardim esta primavera. A força desapareceu e as roseiras parecem mostrar a ausência de quem cuidou com atenção redobrada, todos os dias. Todos os dias…
Os botões secaram sem abrir. Sente-se a tristeza em cada ramo, em cada botão seco de esperança.
Hoje, as lágrimas do meu rosto compreenderam o que já não existe. A vida que se via foi destroçada pela doença e sem lhes faltar a luz as roseiras mostram a lentidão de quem parte. Parecem ausentar-se e quem as vê sabe que desistiram no abraço da noite. Foram a vida, a surpresa de tantas saudades e respiram agora cada dia de dor. O que não se consegue explicar não significa que não possa existir.
Que pormenores da vida podem interessar aos outros? Quantas histórias há por aí de dores na ausência dos outros? Quantos escrevem que o sentimento está em tantos lados?
Escrevo de novo o que é difícil acreditar. As roseiras que admiro, tão simples e bonitas, sem flores para exibir, parecem sentir o sofrimento de quem as cuidou e abraçou durante tantos anos. Essas rosas, dos anos passados, vermelhas e em tom de rosa, enormes, lindas, ficam nestas linhas da vida que se quebrou.
Junho 2026
Maria Silva Monteiro