Outro Alguém

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As portas da razão

Parei junto às portas da razão. Conheço-as bem. Vi-as mudar de sítio. Vi-as mudar de cor. São cinzentas e feias. Parecem ganhar vida quando ali passo. Em seu redor, há plantas verdes que crescem sempre que a escuridão as protege. As raízes crescem à sua volta, para as amparar. Nos dias de sol, as plantas estão junto à parede e tornam o espaço menos misterioso, parecem quase um sinal de mudança, que não é percebido por todos. Logo de seguida, o céu escurece como um aviso.

Caminho na estrada estreita junto à casa, todos os meses. As plantas e as tais portas ficam diferentes, quando me aproximo um pouco mais. Sinto o desprezo a crescer. O afastamento cresce dentro de mim. Rejeitam-me! Escondem-me! É sempre assim! Naquele sítio, naquela casa, só aceitam os ricos e os eleitos. Aqueles que foram escolhidos, para festejar nas horas mortas, nunca se aproximam. Eu nunca fui escolhida. Nunca. É assim há muitos anos, naquele canto escondido, um sítio aberto aos céus e fechado para alguns, fechado para mim. Eu sou pobre de qualquer coisa, pobre na existência aceitável para os outros. Caminho.

Os céus escureceram.

As árvores oscilam e agitam-se em ruídos. As portas mudam de cor de novo e o vento frio envolve-me, como um aviso. Sinto as raízes a movimentarem-se no chão, perto do portão de entrada. O caminho estreito escureceu e a vegetação agita-se na direção de um vento, que protege as portas da razão. Receio este aviso e a escuridão que guarda o portão.

Afasto-me. O sol brilha de novo e o vento canta mudanças.

Maria Silva Monteiro – 2025