Outro Alguém

• •

Mãe

Uma carta dobrada no ouro da vida, suave, doce e melancólica, guarda o destino de amor de uma mãe atenta.

Caminhámos num turbilhão de momentos, de mãos dadas com a coragem merecida, querida mãe.

Saltámos as poças do caminho como se uma dança modesta tivesse sido coberta de café.

Que ventos se levantam quando as árvores escorregam naquele lugar que te ofereci? Que cortinas oscilam na verdade dos dias doces? Que palavras descrevem a ausência?

Acordo e recordo. O silêncio que escolhias para proteger os dias escuros e os cheiros adocicados das surpresas guardadas estão no coração.

Quando a cortina esvoaça solta na brisa quente, agarro as recordações que me ofereces e sinto a bondade abraçar-me.

Esta carta que te envio é doce e silenciosa. Sente-se essa brisa suave em cada letra, uma aragem morna de sentimentos toca no rosto que sente a ausência e que recorda as linhas do tempo. A distância, as últimas palavras, o último olhar são lenços de lágrimas que não voam. Vejo-os todos.

É teu o tempo e a história que voam nas asas livres dos passarinhos que se entregam ao destino do mundo. Aqui, parada a olhar para nada, tudo se apaga e o vento é quase doce quando abraça o rosto. Embalo a melodia nos ramos que oscilam, ouço o mar respirar e admiro o céu azul de braços abertos para os novelos brancos, chamando o conforto, a luz e um caminho leve.

Sete anos passaram e ainda vejo a rola-de-colar, o olhar doce e a ternura do afago.

Esta carta que escrevo com as linhas da saudade é tua. Entrego-a no teu coração.

© 2026  Maria Silva Monteiro – 18 de março